As Marcas do Caminho

  • By biapo
  • on 24 de fevereiro de 2016

A minha geração nasceu por volta da metade do século passado. Somos envelhecentes, no conceito atual. Antigamente já seríamos anciães, mas hoje em dia tem velho de 100 anos pulando de paraquedas e declarando que ainda quer viver muito. Bem, cada um com seu cada qual, não me proponho a discutir isso, mas sim os pensamentos e emoções que geralmente pintam nesse estágio, com variações, lógico, indivíduos na mesma faixa etária não precisam ser iguais em seu sentir.
No geral penso que alguns pensamentos se tornam mais comuns: falar de saúde, por exemplo, se torna bem mais constante, já que começam a surgir as encrencas ligadas à idade. Quem já as tinha, irá tê-las acrescidas das novas encrencas, dificilmente curáveis – falo aqui dessas dores várias que nos acometem, mesmo sem maiores consequências; não estou falando das mais graves.

Outro pensamento recorrente: o da própria morte: volta e meia a gente se flagra pensando “será com que idade vou morrer?”, será quem vai cuidar de mim?”. Não digo que tais ideias sejam obsessivas, angustiantes, mas que elas surgem com uma certa frequência. Não me lembro de jamais pensar em minha própria morte, quando jovem. Estamos agora em outra fase da vida, o que também não quer dizer que não possamos virar adolescentes ou mesmo crianças birrentas, em algumas situações. Somos pessoas com sua individualidade, sua história, seu próprio jeito de ser, porém unidos por nossa humanidade, nosso legado comum. No geral somos bem parecidos: amamos, sofremos, rimos (só nós e as hienas, por sinal), temos fome, frio, contrariedades, prazeres, dor de cotovelo. Tudo com as variações e as intensidades relativas, mas – em última análise – somos farinha do mesmo saco.

E às vezes me pergunto: será que evoluímos no todo, nas coisas essenciais? E infelizmente parece que a resposta é não. Se tivéssemos evoluído nesse sentido como evoluímos na tecnologia, não haveria tanta guerra e tanta violência. Somos ainda selvagens, talvez piores do que selvagens. Outros já disseram isso, muitos. Joseph Conrad mostrou em seus livros que os colonizadores ingleses eram maus para com os povos que colonizavam. Arbitrários, autoritários e cruéis. Enquanto houver um povo que se julgue superior a outro, e queira subjugá-lo, não terá havido progresso no sentido da solidariedade e do amor. Por mais smartphones e viagens intergalácticas que alcancemos criar.

Essa é outra coisa que preocupa em nossa idade: nosso legado, o que vamos deixar para os que estão nascendo hoje, para os que ainda vão nascer. Podemos com sinceridade dizer: olha, eu fiz a minha parte, lutei por um mundo melhor, deixei meu exemplo? Será que podemos dizer isso? Ou fomos egoístas, nos acreditamos superiores a outros seres humanos, seja pela cor da sua pele, seja porque possuem outros costumes, seja porque se organizam de forma diferente da que nos organizamos. Estudos mostram que os aborígenes da Austrália tinham comunidades mil vezes mais harmoniosas que as nossas.
Sem conflitos ou neuroses. Algumas tribos aqui na América, antes do descobrimento, também. Em nosso mundo há equilíbrio, vivemos em harmonia? O que vocês acham, vamos deixando uma boa herança? A humanidade realmente evoluiu? Ah, gente, desculpem-me, acabei desviando o rumo da prosa. Tudo culpa da idade, a gente vai ficando um pouco esquecido. Cabeça cheia demais com as marcas do caminho.

Maria Lúcia Félix de Sousa Bufaiçal, escritora e poeta.

Foto: Maria Luiza Graner