Restaurações de prédios tombados revelam sempre o mesmo tom no Rio. Por quê?

CELINA CÔRTES (celina cortes@jb.com.br), Jornal do Brasil

 

Jaipur, na Índia, é conhecida por seus palácios rosa terracota construídos no interior do centro histórico murado, que empresta à cidade um clima de conto de fadas. A causa desta monocromia foi o desejo do marajá Sawai Ram Singh de impressionar o príncipe inglês, Alberto, em sua visita ao país, em 1876. Acontece que a esposa predileta do marajá gostava tanto daquele colorido que o convenceu a criar uma lei que tornava ilegal que os prédios fossem pintados de outra cor. Talvez a população carioca não chegue a se dar conta, entretanto, do que ocorre com a maioria dos monumentos do Rio de Janeiro, pintada de um ocre amarelado após obras de restauração. E não houve nenhuma visita real que justificasse tal opção. Seria uma medida de economia ou simples falta de imaginação?

A Biblioteca Nacional, no Centro, por exemplo, que inaugura sua mais recente restauração amanhã, ganhou cores ocre em sua fachada. De acordo com Luiz Antônio Lopes de Souza, arquiteto que coordenou a obra, o atual padrão cromático foi estabelecido na década de 90 por uma comissão especial de técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan). “Naquela época, foi usada uma tinta acrílica, que ajudou a trazer sérios danos à fachada nas décadas seguintes. Nessa última restauração usamos uma pigmentação mineral, que permite à argamassa reagir melhor ao meio ambiente, ajuda a valorizar as nuances de volumetria da fachada e julgamos que seja a mais próxima possível da época em que o prédio foi construído”, observa.

Foto: Instituto Benjamin Constant ganhou tonalidades ocre originais

 

Quem mata a charada do mistério é o arquiteto Paulo Bellinha, superintendente do Escritório Técnico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que acompanha de perto as restaurações de imóveis tombados da instituição, como o Palácio Universitário, na Avenida Pasteur, na Urca, na Zona Sul do Rio; do Hospital-Escola São Francisco de Assis, no Centro; e do Museu Nacional, na Quinta da Boavista, na Zona Norte. “No fim do século 19, início do século 20, não havia tecnologia para moer pedras coloridas. Toda a pigmentação era feita à base de argila, daí a cor ocre. Mesmo depois da evolução tecnológica que multiplicou as possibilidades de cores, o ocre se manteve”, esclarece.

O arquiteto Carlos Fernando Andrade, que já foi superintendente do Iphan, vai mais longe. Segundo ele, o ocre era a cor da tinta utilizada no passado para uniformizar a argamassa antes de receber a demão de tinta definitiva: “Chamo isso de prospecção pictórica. Então, quando se descascava alguma superfície chegava-se sempre à cor ocre. Comecei a brigar contra isso: ‘Então, todos os monumentos serão desta mesma cor?’”. O arquiteto observa que é impossível reproduzir com exatidão uma tinta usada no passado, em função das influências sofridas do meio ambiente, que sempre altera a cor original.

Paulo Bellinha recupera uma história dos tempos do presidente Getulio Vargas, sem base oficial, que esclareceria a causa da monocromia anterior ao ocre ter sido o rosa: “Reza a lenda que quando Getulio foi passar a lua de mel com Dona Darci na Itália, apaixonou-se pelo vermelho siena usado nos monumentos de lá, daí ter optado pela cor de rosa”. Opção essa que passou,  então, a ser determinada por decreto presidencial.

O arquiteto Ricarte Gomes, funcionário aposentado do Museu Nacional, jura de pés juntos que a cor original da residência dos imperadores, hoje Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na Zona Norte, era ocre. “Fizemos prospecções na reforma de 2007, e a primeira cor que apareceu foi o ocre”, afirma o arquiteto. A descoberta poderia até ser um efeito da técnica citada por Carlos Fernando Andrade. Não é o caso, contudo. Segundo ele, todas as “documentações da mordomia” descreviam o palácio como sendo desta cor. “A pequena casa, que pertencia ao comerciante Elias Antonio Lopes, era pintada de branco. Quando D. João ganhou o imóvel, o pintou de ocre, que sempre foi a cor usada durante o período imperial”, relata. A mordomia a que ele se refere não tem o atual tom pejorativo: eram os documentos deixados pelos mordomos, as pessoas mais importantes depois do imperador, que davam conta da contabilidade e de tudo o que se passava dentro e fora do palácio, como o protagonista da série inglesa “Downton Abbey”.

Foto: Palácio Guanabara

 

A restauradora do Iphan, Cláudia Nunes, acrescenta ainda que a cor ocre amarelada era um dos aspectos que contribuíam para padronizar os prédios de estilo eclético.

 

Do rosa ao ocre amarelado 

Um olhar atento vai constatar a atual unidade nas cores dos principais monumentos da cidade. O Palácio Guanabara, em Laranjeiras, na Zona Sul, moradia do casal Princesa Isabel e Conde D’Eu a partir de 1865, foi construído com linhas neoclássicas em tons ocre. Na grande reforma realizada em 1908 por ocasião da anunciada visita do rei de Portugal, Carlos I, que acabou não acontecendo — ele morreu em 1º de fevereiro daquele ano —, o prédio migrou para o estilo eclético e manteve as tonalidades ocre. Reformas posteriores caiaram de branco a fachada, com detalhes beges, até que a última e meticulosa restauração, inaugurada em dezembro de 2011, resgatou o ocre original.

O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), por sua vez, também em Laranjeiras, passou do rosa ao ocre amarelado em sua mais recente reforma. O prédio foi inaugurado em 1856 já com esta finalidade, iniciativa de caráter privado capitaneada pelo francês E. Huet, surdo de nascença, que se tornou professor no renomado Instituto Nacional de Paris, modelo para o INES. A escola foi incorporada por decreto à Secretaria Imperial, em 1867, e hoje é vinculada ao Ministério da Educação. Algo bem parecido aconteceu com o Instituto Benjamin Constant, na Urca. Criado como Imperial Instituto dos Meninos Cegos, de 1854, por influência de José Álvares de Azevedo, que conheceu o Sistema Braille de leitura ao estudar em Paris e o levou a Pedro II, o imóvel, hoje também vinculado ao Ministério da Educação, mudou do rosa ao ocre, em sua mais recente reforma.

A atual sede Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o Palácio Tiradentes, foi outro que ganhou as tonalidades ocre originais do projeto de estilo eclético dos arquitetos Archimedes Memória e Francisco Couchet, de 1922. A primeira construção no local remonta a 1640, quando sediou a Cadeia Velha, por onde passou Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O prédio também funcionou para abrigar a criadagem da Casa Real, até ser reformado em 1822 por José Bonifácio de Andrade e Silva, para sediar a Assembleia Geral Constituinte, demolida cem anos depois para dar lugar ao Congresso Nacional (1926 a 1960) e, depois, a Alerj.

É bem provável que existam outros monumentos pela cidade na mesma situação que acabaram ficando de fora desta reportagem. Mas se dessem uma raspadinha em suas paredes…

 

Pigmento foi usado desde a pré-história

A monocromia não é atributo exclusivo de Jaipur ou dos monumentos cariocas. Durante viagem a Londres, o Imperador Napoleão III (1808-1873, primeiro presidente da segunda república francesa e imperador do segundo império do país) encantou-se com a “modernidade” da capital inglesa. Voltou a Paris decidido a realizar um profundo programa de transformação na cidade, solicitado ao prefeito da época, o barão Georges-Eugène Haussmann.

A cidade foi redesenhada por Haussmann, como faria mais tarde o prefeito Pereira Passos com a então capital do Brasil, o Rio de Janeiro. Entre 1852 e 1870, foram abertas as grandes avenidas, os boulevards arborizados, os parques, modernizados os transportes e instalado um sistema de saneamento básico que mudou radicalmente a cidade. Um dos principais pontos turísticos, a Praça Etoile nasceu nessa reforma, com a reprodução de uma estrela cujos raios se projetavam em ruas e avenidas; assim como a famosa Avenida Champs Elysées e a homogeneidade que padronizou as fachadas dos prédios residenciais, da mesma altura, proporcional à largura da rua, de um tom ocre claro, mais perto do bege.

Ocre no dicionário é um substantivo masculino que designa uma variedade de argila colorida pelo óxido de ferro, rica em hematita, que gera o ocre avermelhado, ou em limonita, o ocre amarelado, que predomina nos monumentos do Rio e nas edificações parisienses. O ocre também é empregado para destemperar as tintas e proteger a madeira dos danos causados pelas chuvas, entre outras utilidades.

O pigmento de ocre foi usado pelos humanos Cro-Magnon, os mais antigos restos de homo sapiens europeus, que pintavam as chamadas artes rupestres nas cavernas pré-históricas no sul do continente, entre 32 mil e 10 mil anos atrás.

 

Fonte: www.jb.com.br